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Data: 15/07/2008 Faxineira monta biblioteca no litoral com cópias e livro usado
Moradora de comunidade carente, ela empresta volumes e orienta leitores que buscam o local.
Ela nunca ouviu falar em listas de livros mais vendidos nem de escritores internacionais consagrados, além de folhear menos jornais do que gostaria. No entanto, isso não significa que Deusa Maria dos Santos, de 43 anos, não aprecie literatura. Pelo contrário.
A faxineira e lavadeira, que cursou até o ensino médio e tem curso técnico de secretariado, montou em sua própria casa uma biblioteca para crianças e adolescentes do bairro do Areião, no Guarujá (litoral sul de São Paulo).
Bem perto das mansões do Jardim Virgínia, na praia da Enseada, fica a comunidade carente, onde vivem cerca de 2.200 famílias. Deusa mora lá há 38 anos, desde quando o Areião era considerado favela e não tinha saneamento básico. “Sempre no mesmo lugar, mudando de barraco em barraco, porque era de madeira e madeira estraga.” Hoje sua casa é de blocos, sem acabamento. O maior cômodo é o da frente, onde ficam os cerca de 3 mil livros conquistados ao longo de 14 anos.
“Comecei a montar a biblioteca quando a Karina (filha mais velha, de 21 anos) entrou na escola. Eu já gostava de ler, daí ia tirando cópia, guardando e comprando em sebos. Na verdade, as pessoas são muito generosas comigo”, diz. “O que eu tenho sorte de ganhar livro, não está escrito”, afirma.
Com o acervo organizado em prateleiras de volumes didáticos, enciclopédias e romances, ela afirma que sabe exatamente onde encontrar cada livro ou tema para diferentes pesquisas e trabalhos escolares. “Livro não dá trabalho, é um prazer arrumar. Tem muita saída livros de química e biologia.”
CADA UM COM SEU TEMPO
Os freqüentadores da biblioteca do Areião não têm data para devolução e podem levar quantos livros quiserem por vez. Deusa apenas anota na primeira página a data da retirada, assim como um breve relato de como o exemplar entrou para o acervo: data de chegada, por quem foi doado ou se foi comprado. Há até um carimbo de identificação da biblioteca.
“Eles levam, fazem o trabalho e me devolvem, mas não calculo dias. Ontem, por exemplo, o menino levou cinco livros. Não dá para calcular quanto tempo ele vai demorar para ler, isso depende do livro e da pessoa”, explica.
Deusa fala com carinho dos seus bens mais preciosos, mas admite não ter títulos repetidos por falta de espaço. Mas nem sempre foi assim. Deusa conta que o local já foi uma biblioteca de verdade. “Tinha placa e tudo, mesa, cadeira. Eu fazia recreação com os pequenininhos, contava histórias e colocava carimbo para pintarem. Mas agora não tem espaço.”
Com a reforma da pequena casa e divisão dos ambientes com tijolos, o sonho de Deusa acabou perdendo espaço. A cozinha é usada para a confecção de sabão feito com óleo de fritura que recebe de doação e depois é vendido para completar a renda da família.
Fonte: O Estado de S. Paulo (14/07) |